Pular para o conteúdo

ADAMAH

 O Salmo 148 e diversos outros textos da Bíblia atribuem personalidade a seres não humanos da criação. Para compreender estes textos é necessário entender a natureza poética das metáforas empregadas neles como comparações que estabelecem a realidade que está além das limitações semânticas das palavras.

As representações personalistas de campos e rios na Bíblia Hebraica oferecem a promessa de que, se procurarmos com bastante atenção, poderemos encontrar companheiros e amigos ao nosso redor. Podemos ser adotados pelas árvores. É uma promessa de novos relacionamentos.
O mundo não é uma máquina complicada, mas muda, cujo funcionamento os humanos devem observar para não a sobrecarregar ou quebrá-la. O mundo está cheio de pessoas, das quais apenas algumas são humanas; a atenção pode levar à interação, à amizade, à conversa. Aliás, o cuidado e o bom devem partir sempre de um sentimento de amor e afeto. O que os textos de natureza personalista sugerem é que o afeto humano pela terra será recebido com trocas de afeto. Isaías promete a Israel que montanhas e árvores celebrarão o retorno dos exilados: “Os montes e os outeiros cantarão diante de ti, e todas as árvores do campo baterão palmas” (Isaías 55:12). Numa época em que a humanidade parece um fardo que o resto da criação deve suportar, a ideia de árvores e colinas regozijando-se com o regresso de um povo é ao mesmo tempo estranha e deslumbrante. Sugere também que o peso de uma responsabilidade ecológica não deve ser um fardo para a humanidade como medo da extinção, mas um prazer de existência compartilhada, com muito amor envolvido a partir de uma intimidade renovada após um longo período de alienação. Textos da terra e da natureza como personagens sugerem que uma razão para procurar a justiça ecológica é que, através das nossas ações, podemos ser bem-vindos por pessoas que não sejam humanas. Poderíamos ser capazes de dizer, com Isaías, “o deserto e a terra seca exultarão, o deserto se alegrará e florescerá como o açafrão. Ela florescerá abundantemente e se alegrará com alegria e júbilo” (Isaías 35:1). Os textos de natureza personificada prometem que se prestarmos atenção, se agirmos com respeito e amor, poderemos encontrar uma série de amigos, uma comunidade que se estende para além da nossa humanidade, para além do nosso conhecimento limitado.
Texto base: Isaías 55:12

Embora Paulo tenha escrito cartas, o pensamento paulino é como uma história implícita nos seus textos, nunca articulada completamente, mas formando uma subestrutura narrativa para seus argumentos. Romanos 8:18-23 tem sido descrito como um “mantra ambiental” nos escritos de Paulo, mas na verdade este texto é uma janela para toda essa grande história do drama de Deus, do homem e dos seres não humanos. Toda a história da Terra está apresentada neste texto. Em um primeiro ato a criação foi sujeita à vaidade humana e a corrupção não apenas como consequência do pecado de Adão, mas também devido a violência depredatória constante que ela sofre sistematicamente por meio da ação humana. Porém a criação também está sujeita à esperança da revelação da nova humanidade como resultado da ação salvadora de Cristo. Podemos não ter alcançado ainda a libertação escatológica da criação, mas podemos antecipá-la. Isto estaria de acordo com a maneira como Paulo, nesta mesma passagem, retrata os crentes como já participando da vida da era vindoura de forma antecipada: eles têm “as primícias do Espírito” (v. 23), são a manifestação presente da Nova Criação. Isto é o que faz do gemido da natureza não apenas uma expressão de sofrimento, mas também um anseio de esperança pela redenção que ainda está por vir. Evitar e reparar a destruição ecológica seria praticar a esperança que os crentes partilham com o resto da criação

Texto base: Romanos 8:18-23

Neste episódio, vamos tratar de algumas nuances únicas da natureza como personagem, como pessoa, nos chamados livros poéticos. Nos Salmos, por exemplo, a natureza não-animal é articulada, o que é um tema clássico do livro de Salmos. Em Jó, a natureza parece se portar como juíza. Embora a natureza não-animal tenha servido como testemunha e juiz em outros textos, uma característica distintiva do Livro de Jó é que seus personagens debatem explicitamente como isso se relaciona com a conduta e o sofrimento humanos. Por fim, em Cântico dos Cânticos há a dissolução lúdica das fronteiras que separam humanos, animais, vegetação e paisagens, com o intuito metafórico (só metafórico?) de fundir os amantes. A terra e a natureza, nos livros poéticos, são ricamente personificadas e fortemente atuantes.
Texto base: Salmo 29

Nos livros proféticos e nos livros históricos, a personificação de pessoas que não são humanas e as atividades em que se envolvem são ainda mais frequentes do que no Pentateuco. O foco muda da terra como uma unidade única para uma infinidade de atores: rios, árvores, campos, montanhas, estrelas. Campos e montanhas choram e sofrem pela infidelidade humana, e testemunham esse fato diante de Deus. O quadro não é totalmente sombrio, é claro; humanos e personagens não-humanos se reúnem para louvar a Deus e se alegrar quando sua saúde é restaurada. O regresso dos exilados é uma fonte de alegria para as árvores, tal como a restauração da fertilidade agrícola o é para os seres humanos. A relação entre Deus e a natureza também cresce em complexidade nos Profetas. Na maioria dos textos, a natureza não-animal é, em contraste com os seres humanos, uma criatura fiel e obediente, mas alguns textos retratam o mar como rebelde e recalcitrante. Os livros proféticos não apresentam uma imagem de personagens não-humanos que seja insípida e unidimensional, mas uma imagem em que são tão heterogêneas e complexas quanto os seres humanos. A natureza luta, treme, sofre, recebe conforto e se alegra. A ruptura entre Deus e Israel não é apenas uma questão humana, mas um problema sentido por todas as criaturas que partilham espaço e lugar com o povo de Deus. A natureza não-animal não fica parada, esperando que os humanos resolvam as coisas, mas, em vez disso, entra na brecha, junto com profetas, sacerdotes e pessoas comuns, até mesmo com o próprio Deus.
Texto base: Ezequiel 22

O início da Bíblia, especificamente, Gênesis 1:26-30, é o trecho mais mal interpretado com relação a relação entre o ser humano e a terra. Muitos intérpretes usaram esse trecho para legitimar o abuso dos recursos da natureza pelo ser humano. Como aos seres humanos foi dado o domínio, podemos e devemos explorar a terra e a natureza. Entretanto, ao entender a sequência da narrativa de Gênesis, inclusive a relação conflituosa entre a terra e Cain e a terra e toda a humanidade no dilúvio, percebemos que a terra e a natureza atuam, na verdade, como denunciadores da violência humana. O que era para ser uma relação harmoniosa, se tornou, em virtude do pecado, uma relação complexa, abusiva e destrutiva. Mas não é só em Gênesis que esse relacionamento é um retrato do papel da terra e da natureza. No Pentateuco todo, a terra (erets) e o solo (adamah) são personagens-chave. No Êxodo, engole os egípcios que perseguem os israelitas através do Mar Vermelho. Em Levítico atribui responsabilidades cultuais e adverte que ela resistirá aos habitantes humanos que obstruam a sua capacidade de cumpri-las. Em Números, a terra é descrita como um ser devorador, que engole Corá e sua companhia. Em Deuteronômio, a terra, juntamente com os céus, são testemunhas contra Israel, caso eles não consigam manter sua aliança com Deus. Em muitos momentos do Pentateuco, a terra é retratada como uma pessoa, com ações, reações, etc. Entender esses textos e esses contextos deveria abrir nossos olhos para nossa relação vital para com a terra e para com a natureza em geral.
Texto base: Gênesis 1:26-30; Gênesis 2:15; Gênesis 3:17-19; Gênesis 4:10-14

O Salmo 148 e diversos outros textos da Bíblia atribuem personalidade a seres não humanos da criação. Para compreender estes textos é necessário entender a natureza poética das metáforas empregadas neles como comparações que estabelecem a realidade que está além das limitações semânticas das palavras. Também é preciso compreender a ontologia dos seres descritos nestes textos – a natureza não é vista como algo estático ou mera fonte de recursos a ser explorada, antes ela é viva, interativa e produz sua própria linguagem cultural. Por isso, nas Escrituras, o relacionamento espiritual do homem com Deus não está divorciado da interação consciente de cada ser humano com as demais pessoas da criação. Para compreendermos essa dinâmica relacional necessitamos do toque do poder de Deus para abrir nossas percepções adormecidas a fim de nos possibilitar ver “pessoas” onde só enxergamos árvores ou seres inanimados.
Texto base: Salmo 148 e Marcos 8:22-26