Um Deus em forma HUMANA
A linguagem é limitante. Nossa descrição do mundo está restrita aos termos que conhecemos. Isso também se aplica à fala sobre Deus, onde usamos palavras complexas, porém parciais, para explicá-lo. Termos como “onipotência”, “onisciência” e “onipresença” são usados pelos teólogos para descrever um Deus transcendente, mas essas palavras podem nos aprisionar, obscurecendo a experiência das narrativas bíblicas. A série propõe explorar as narrativas antropomórficas de Deus no Antigo Testamento como ponto de partida para construir uma compreensão mais humanizada de Deus, visando uma possível transformação pessoal e comunitária.
Um Deus em forma humana apresentado no Antigo Testamento não deveria surpreender nenhum cristão, visto que o Novo Testamento é tão claro em afirmar Jesus como Deus encarnado. Um Deus 100% encarnado é a base da nossa fé. A partir de Jesus, é possível perceber como uma teologia que percebe um Deus em forma humana nos aproxima de uma divindade disposta a sofrer injustiças por amor.
Texto base: Hebreus 1:1-4
Alguns estudiosos argumentam que o caráter se refere às tendências comportamentais que se repetem frequentemente; ou seja, a regularidade de nossas ações reflete nossos pensamentos e emoções mais profundas. Ao observarmos as ações de Deus, identificamos regularidades, padrões recorrentes, tendências que se repetem em Suas ações. Manifestações de Seu amor, Sua misericórdia e Sua justiça são demonstradas de maneira similar ao longo das escrituras. Ainda que a descrição de Deus como ciumento no Antigo Testamento possa parecer forte e pesada para nossa compreensão atual, é, na verdade, um traço do Seu caráter, dada a sua regular repetição.
Texto base: Gênesis 18-19; Jonas 1-4
Emoções são parte da existência e, ao mesmo tempo que afetam nosso corpo, são afetadas por ele. Infelizmente, as emoções são percebidas de maneira negativa e a racionalidade é exaltada sobre elas. Logo, assim também entendemos as emoções divinas, apresentadas na Bíblia. Desde sempre a humanidade parece preferir um Deus apático, ou, quando muito, apenas um Deus que transpareça emoções positivas. Entretanto, o Deus retratado na Bíblia é cheio de páthos, ou seja, cheio de emoções, e, muitas vezes, não conseguimos entendê-las ou explicá-las. Obviamente, nossas emoções não explicam diretamente as emoções divinas, mas podem nos ajudar a perceber que, sim, Ele sente.
Texto base: Êxodo 32-34
Na Bíblia Hebraica não há a palavra mente, nem a ideia de mente como a entendemos hoje, em termos científicos. Ao invés disso, encontramos a ideia de que é no coração que o ser humano pensa, pondera, sente e toma decisões. Aliás, na Bíblia Hebraica, o ser humano é um todo indivisível formado por corpo, coração e espírito. Sendo assim, o coração de Deus é onde Ele toma as decisões. Verbos associados ao coração dEle são usados para descrever, inclusive, mudanças de decisão, testes e lembranças. Será possível, então, que Deus mude? Ele se esquece de alguma coisa? E se Ele testa, significa que não sabe todas as coisas?
-Textos- base: Gênesis 6 e 8; Êxodo 3 e 17; 1 Samuel 15
Fomos ensinados que Deus está completamente fora de tempo e lugar, que Ele não tem corporeidade. Entretanto, no Antigo Testamento, isso não é tão claro. Não somente Deus está presente em tempo específico e em lugar específico, como também Ele se revela em corpo plenamente humano, como nos episódios de Abraão e de Jacó. Ao mesmo tempo, muitas das aparições de Deus envolvem fogo e uma grande falta de materialidade corpórea, como na sarça ardente ou no monte Sinai. Isso nos mostra que explicar Deus não é tão simples e deveria nos manter humildes e dispostos a abraçar as tensões e o mistério.
-Texto-base: Êxodo 19 e Gênesis 32
Falar sobre Deus transcende o mero exercício teológico de coleta de dados e construção de doutrina. Falar sobre Deus envolve uma conversa que permeie as intensas tensões do texto bíblico acerca de Deus. Deparamo-nos ora com um Deus distante e transcendente, capaz de criar apenas com Sua voz, ora com um Deus intimamente próximo, a ponto de usar mãos e boca para formar o ser humano. Pensar o divino de maneira antropomórfica não deveria ser um desafio, já que o próprio texto bíblico nos diz que fomos criados à “imagem e semelhança” de Deus.
Texto base: Gênesis 1 e 2
A linguagem é limitante. A maneira como descrevemos o mundo ao nosso redor é restrita aos vocábulos que conhecemos e que sabemos usar. Muito por isso, nosso vocabulário para falar de Deus é também um exercício de incompletude. Usamos palavras complexas, mas que são parciais e incompletas. Usamos termos bonitos e que aparentam profundidade para esconder a restrição linguística para explicar Deus.
Teólogos usam ideias como “onipotência”, “onisciência” e “onipresença” para falar de um Deus completamente transcendente que sabe de tudo, está em todo lugar e pode qualquer coisa. Essas palavras, e as ideias contidas nelas, não estão erradas, mas nos aprisionam e nos fazem perder de vista a experiência de ler o texto bíblico e ficar boquiabertos com a maneira como os autores apresentaram a divindade.
A proposta dessa série é passear pelas narrativas mais antropomórficas de Deus no Antigo Testamento e usar essas passagens como um ponto de partida para construir ideias sobre Deus. Talvez, trilhar o caminho de um Deus mais humanizado possa nos levar a uma transformação como indivíduos e como comunidade.
Texto base: Êxodo 3:14